dos banhos e dos bancos
Neste
brevíssimo intervalo que, entretanto, a
gosto decorreu, e durante o qual alguns de nós foram a banhos de uma forma
mais ou menos tradicional, outros aproveitaram o tempo a dar grandes ou
pequenas banhadas a si próprios, com gelo e sem gelo e, despudificados,
publicaram esses banhos nas redes sociais como se a higiene de cada um fosse
coisa pública e visível. Nada contra. Na sociedade de imagem em que todos, hoje
mais do que nunca, vivemos, até a higiene de cada um se arrisca a ser notícia
de jornal digital e coisa pública. Nos casos em apreço, duplos banhos esses,
diria, que cumprem o gesto solidário e lúdico da lavagem diária da matéria
física, ao mesmo tempo que se higieniza a alma. Lava-se o corpo, o mesmo corpo
que é quem paga quando a cabeça não tem juízo, e dá-se outra cor à caridade
solidária com endereço referenciado. Ou então, como testemunhei em inúmeras
exposições, é coisa mais prosaica, arrepio para poupar um jantar, divertimento
simplificado, ‘coisa louca’ para mais tarde recordar.
Sebre a caridade(zinha),
tenho as maiores dúvidas. Serve para muitas coisas, claro, nomeadamene para
fomentar o comércio maior das grandes superfícies em épocas específicas, e
vergar a sazonalidade pobreta quando dá mais jeito. Pode ser trunfo (mosteiro e
mistério) dos jerónimos desta vida, mas Caridade (com letra grande... gesto que
não espera retorno... coisa não medida nem planeada à espera de
reconhecimento...) é que não é. Esta caridade que se hidrata em banhos gelados,
aparentemente mais nobre e fidalga, servindo solidariamente para ajudar, serve
sobretudo para ilibar o Estado, ou os Estados, dos trabalhos e dos
investimentos que lhe deveriam caber. O dinheiro não é de borracha, ok,
sabê-mo-lo bem, e oh como o sabemos, mas essa tarefa central, curial, da
administração, não deve ser coisa entregue à displicência dos humanos humores
individuais. O corpo que se devia lavar é o corpo colectivo que todos
constituimos, com o sabão que todos entregamos à função, de forma organizada,
porque o corpo é fraco, como a carne que o compõe. Mas o Estado, ou os Estados,
têm as prioridades trocadas. Prefere esfregar a sujidade da banca e do
banqueiro, a investir na alma do cidadão ferido.
No
entretanto, para além dessa água desperdiçada, muita outra correu debaixo da
ponte, da nossa ponte. Tanta e tamanha que dificilmente recuperaremos a
informação desperdiçada. Como se a realidade nos apanhasse de costas e sem
aviso, nos rasteirasse no nossa desatenção.
É claro que
vamos viver com os pecados que neste Agosto nos sobressaltaram, e durante muito
tempo.
Sejam os
resquícios da história do banco que, num dia era sólido como uma rocha e onde
valia a pena investir, e no dia seguinte fraquejou, se veio abaixo das canetas
e, por isso, salomonicamente, foi dividido em dois: o banco mau e o banco bom,
céu e inferno no mesmo corpo, que a bi-polaridade também habita a grande banca
e os bancos da nossa infelicidade.
A decisão de
partir o banco ao meio, em duas metades, a sã e a podre, não lembrava nem ao
menino Jesus. Deve ser isso a que se chama engenharia financeira criativa.
Empreendedorismo financeiro. Não sei. E sobretudo não sei, não consigo
perceber, porque é que mesmo na metade sã é necessário injectar quase cinco mil
milhões de euros. Mas, não está sã? Ou a sanidade é uma coisa em abstracto,
volátil como o juízo? Se é assim com a metade boa, imagino o escarcéu que não
vai na metade má. Deve ser o inferno na cave do inferno.
Esperar para
ver. E para pagar.
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