santos manuel
Em tempo de
jogos olímpicos, de emissões circulares sobre as tantas modalidades desportivas
que a TV não se cansa de cobrir, é pena que sobre pouco espaço, ou mesmo
nenhum, para a merecida homenagem a um grande actor que desapareceu: Santos
Manuel.
Conheci-o no
café-restaurante figueirense O Tubarão. Estava uma noite abafada, de verão
quente. Eu vinha de um ensaio do grupo de teatro de amadores a que, naquela
época, pertencia, a Naval, que para além do futebol, do basquete e do bingo,
teimosamente persistia em ter uma secção cultural. Enfim, outros tempos. Ele,
Santos Manuel, não sei de onde vinha, nem se estava férias, se quê. Passava
pouco da meia-noite, creio. Mal entrei, vi-o sentado ao balcão. A beber vinho branco.
Sozinho. Reconheci-o logo que entrei. Tê-lo-ei apontado aos meus camaradas de
grupo como sendo aquele de quem já lhes falara, encantado como andava por
descobir os actores que, longe da sua terra, a minha, a Figueira da Foz,
procuraram e encontraram o grande teatro. Fui ter com ele. Não sei, ainda hoje,
como consegui. E eu conheço-me razoavelmente bem e sei que não sou tipo para
grandes aventuras. Mas fui. Apresentei-me e, cheio de lata, convidei-o a ir ver
o nosso ensaio (ou espectáculo) do dia seguinte. Ele disse que sim, que talvez
fosse, como quem diz que não. Estivemos, ainda assim, a conversar durante um
bom bocado, sobre o amor ao Teatro. E a conversa decorreu de tal modo amistosa,
que me lembro de ele ter falado sobre a sua vida em lisboa, desde o tempo em
que fora vendedor de balcão (creio que numa loja de retrosaria: camisas, botões
e etc), de como se interessou pelas artes e, claro, como chegou ao palco, quase
por acaso.
No dia
seguinte, mesmo sabendo que ele não ia ao ensaio ou ao espectáculo, esperei
secretamente que fosse.
Ainda
regressei ao café restaurante Tubarão nessa noite, mas já não o encontrei.
Vi-o, sim, na
televisão, algumas vezes. E no teatro.
Era um grande
actor. Creio que copio dele, a teimosia da barba e dos óculos, como se, com
isso, quisesse dizer que não são esses detalhes que condicionam as personagens
que inventamos. Até porque as personagens somos nós, inteiros, que temos todas
as personagens possíveis no nosso mundo íntimo, mesmo quando nos projectamos
num outro construído de forma mais histriónica.
Aos setenta e
nove anos, deixou-nos.
Em Cascais,
onde vivia.
Por
circunstâncias da vida, no dia em que faleceu, este domingo, eu estava,
precisamente, em Cascais. E falava dele, (com as actrizes Laura Soveral e
Teresa Sobral que conheci nesse dia), do quanto o admirava e desconhecia, não
desconfiando que ali ao lado, acontecimento vizinho circunstancial meu, sobre
Santos Manuel descia o pano. O derradeiro pano. Palmas.
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